Revolução das canetas emagrecedoras: de que lado você está?

Canetas injetáveis Mounjaro (tirzepatida) 12,5 mg enfileiradas sobre superfície branca
O Mounjaro, nome comercial da tirzepatida, age em dois receptores hormonais e apresentou redução média de 20,9% do peso corporal nos estudos clínicos | Foto: © Receita Federal/Divulgação

Entenda como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e novas medicações mudam o tratamento da obesidade, segundo a ciência.

Você provavelmente já ouviu falar em algum lugar, ou até conhece alguém que usou, as famosas canetas emagrecedoras: Ozempic, Mounjaro, Wegovy. Aos poucos, esses nomes foram invadindo consultórios, redes sociais e conversas de almoço entre família e amigos.

E não é exagero dizer que estamos vivendo uma das maiores revoluções da medicina metabólica dos últimos tempos. Mas eu preciso te contar o que a ciência realmente diz sobre tudo isso e por que fazer isso do jeito certo faz toda a diferença.

Mas, afinal, o que são essas “canetas”?

Tudo começou com uma classe de medicamentos chamados agonistas do GLP-1, substâncias que imitam um hormônio natural do nosso intestino, responsável por sinalizar ao cérebro que estamos satisfeitos.

A semaglutida foi a grande protagonista dessa virada. Comercializada como Ozempic, para diabetes tipo 2, e Wegovy, para obesidade, ela mostrou resultados que deixaram até os pesquisadores mais céticos de queixo caído.

Em estudos clínicos com duração de 68 semanas, participantes que usaram semaglutida perderam, em média, 15% do peso corporal, em comparação com apenas 2% no grupo placebo. Mais impressionante ainda: 86,4% dos participantes conseguiram reduzir pelo menos 5% do peso ao longo do tratamento. Números históricos.

A chegada do Mounjaro

Aí veio o Mounjaro. Se o Ozempic já havia elevado o nível, a tirzepatida, comercializada como Mounjaro, foi além.

Em vez de agir apenas no receptor do GLP-1, ela atua em dois receptores ao mesmo tempo: o GLP-1 e o GIP. Isso potencializa ainda mais os efeitos sobre o apetite e o metabolismo.

Os resultados do estudo SURMOUNT-1 foram contundentes. Pacientes que usaram a dose mais alta, de 15 mg, perderam, em média, 20,9% do peso corporal em 72 semanas.

Em uma comparação direta entre os dois medicamentos, a tirzepatida mostrou superioridade, com 20,2% de redução de peso, contra 13,7% com a semaglutida.

Para quem vive com obesidade há anos, esses percentuais representam articulações que param de doer, exames que normalizam e energia que volta, além da baixa na balança.

O próximo capítulo: retatrutida

Mas, se você acha que o Mounjaro já era impressionante, espere o próximo capítulo. A retatrutida, desenvolvida pelo laboratório Eli Lilly, está em fase avançada de estudos clínicos e promete ser a medicação mais potente já desenvolvida para obesidade.

Ela age em três receptores hormonais ao mesmo tempo: GLP-1, GIP e glucagon. Com isso, amplia ainda mais os efeitos sobre o apetite, o metabolismo e a queima de gordura.

Os dados preliminares são tão expressivos que viraram notícia até por razões inusitadas. Em um dos ensaios clínicos, 18% dos participantes desistiram do estudo simplesmente porque estavam emagrecendo demais e ficaram com medo dos resultados. Isso nunca tinha acontecido na história da medicina.

Em outro estudo de fase 3, com pessoas com obesidade e artrose, participantes tratados com retatrutida perderam, em média, 28,7% do peso corporal em 68 semanas. O resultado chegou bem perto dos números da cirurgia bariátrica, mas sem o bisturi.

A retatrutida ainda não está aprovada para uso comercial. A previsão é que os estudos de fase 3 se encerrem ao longo de 2026, mas sua chegada já está sendo aguardada com muito entusiasmo pela comunidade médica.

Ferramentas importantes, mas não soluções isoladas

Com resultados tão impressionantes, é tentador pensar que finalmente chegou a solução definitiva para a obesidade. Esses medicamentos são ferramentas extraordinárias. Mas ferramentas, sozinhas, não transformam vidas. O que se faz com elas é que faz a diferença.

Os próprios estudos mostram isso. Quando os pacientes param de usar o Mounjaro, 82% recuperam pelo menos 25% do peso perdido em menos de um ano. Com o Ozempic, o cenário é parecido, e dois terços do peso perdido podem retornar após a interrupção do tratamento.

A obesidade não é falta de força de vontade e também não se resolve com uma injeção semanal isolada. Ela é uma condição crônica e multifatorial, que envolve metabolismo, hormônios, comportamento, sono, estresse, microbiota intestinal e muitos outros fatores.

Usar a medicação sem mudar o ambiente interno, os hábitos, a relação com a comida, o sono, o movimento e o estresse é como colocar um curativo em um ferimento que ainda está sangrando.

Na medicina integrativa, o emagrecimento não começa com a prescrição, mas com a investigação.

O papel da avaliação individualizada

Quais são os padrões hormonais desse paciente? Existe resistência à insulina? Como está o cortisol? O sono é reparador? Há disbiose intestinal? Quais são os gatilhos emocionais que levam ao comer compulsivo?

As canetas emagrecedoras, quando bem indicadas, podem ser aliadas extraordinárias nesse processo. Elas reduzem o apetite e facilitam a adesão às mudanças, criando uma janela de oportunidade para que o paciente construa uma nova relação com o próprio corpo.

Mas essa janela precisa ser aproveitada. É durante o tratamento medicamentoso que se trabalha o comportamento alimentar, a educação nutricional, a recomposição da massa muscular, a regulação do sono e o manejo do estresse.

Porque, quando o medicamento for retirado, o corpo precisa ter aprendido a funcionar de forma diferente.

Ciência, acompanhamento e mudança de hábitos

Resumindo: celebre a ciência, mas não abra mão do processo.

Vivemos um momento extraordinário na medicina metabólica. As ferramentas disponíveis hoje são incomparavelmente melhores do que as de uma década atrás, e o que está por vir é ainda mais promissor.

Mas a revolução está na mudança que acontece quando ciência, acompanhamento médico e transformação de hábitos caminham juntos.

Tem dúvidas sobre qual tratamento faz sentido para o seu caso? O primeiro passo é sempre uma avaliação individualizada. Cada metabolismo é único, e o seu merece ser tratado assim.

Publicado originalmente na BPB.

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