Anabolizantes entre jovens: quando a busca pelo corpo perfeito vira risco

Entenda como o uso de anabolizantes entre jovens pode afetar o coração e transformar a busca pelo corpo perfeito em risco à saúde.
Ele tinha 22 anos, 1,7 milhão de seguidores no Instagram e exibia o sorriso de quem parecia ter alcançado o chamado “shape perfeito”. Gabriel Ganley, conhecido como BBzinho no fisiculturismo nacional, morreu no último sábado, 23 de maio, em São Paulo.
Jovem, disciplinado e admirado por uma geração que associa músculos definidos, performance e aprovação nas redes sociais, Gabriel se tornou mais um alerta sobre a linha cada vez mais fina entre estética, excesso e risco à vida.
O atestado de óbito apontou cardiomiopatia hipertrófica, uma doença caracterizada pelo espessamento do músculo cardíaco e capaz de provocar morte súbita. Médicos apontam que a condição pode ter origem genética. No entanto, especialistas também alertam que o uso de anabolizantes e o esforço físico extremo podem potencializar riscos em pessoas predispostas.
Gabriel havia admitido publicamente, em 2025, que começou a usar esteroides. Antes disso, competia no fisiculturismo natural, modalidade que proíbe justamente esse tipo de substância. A mudança foi anunciada nas redes sociais com a naturalidade de quem troca de suplemento. E é exatamente essa naturalidade que preocupa.
O Brasil que malha e se medica
Não é exagero dizer que o uso de anabolizantes se tornou comum nas academias brasileiras. Os números ajudam a dimensionar o problema: um em cada 16 estudantes no Brasil já usou anabolizantes, segundo dados da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, a Sbem.
De 1996 até hoje, o crescimento foi de 39% entre estudantes do ensino fundamental, 67% no ensino médio e 84% entre os formandos do último ano do colégio.
O perfil mais comum do usuário ainda é o jovem do sexo masculino, entre 18 e 34 anos. No entanto, essa faixa etária vem caindo de forma preocupante. Meninos de 15 e 16 anos já chegam aos consultórios com alterações hormonais, eixos endócrinos comprometidos e corações trabalhando mais do que deveriam.
Nesse cenário, o culto à hipertrofia extrema ganhou força. A promessa de um corpo maior, mais seco e mais rápido passou a circular com facilidade em academias, fóruns, grupos de WhatsApp e perfis fitness. Além disso, a comparação constante nas redes sociais intensifica a pressão sobre adolescentes e jovens adultos.
O que é, e o que não é, terapia hormonal
A terapia de reposição hormonal, conhecida como TRH, tem indicação médica específica. Endocrinologistas a prescrevem para tratar deficiências reais, como hipogonadismo em homens, sintomas da menopausa em mulheres ou condições que afetam a produção hormonal do organismo.
Nesses casos, o tratamento exige avaliação clínica, exames periódicos, dosagem calculada e acompanhamento contínuo.
O que se vê em muitas academias e grupos fitness não tem relação com esse tipo de cuidado médico. O abuso estético de esteroides anabolizantes envolve o uso de doses muito acima do normal de testosterona e derivados sintéticos por pessoas saudáveis.
O objetivo, quase sempre, é ganhar músculo mais rápido, perder gordura ou parecer maior em menos tempo. Porém, o corpo cobra essa conta.
O que acontece com o coração
Os danos cardiovasculares provocados pelo uso abusivo de esteroides anabolizantes são extensos e já aparecem em estudos científicos. Publicações em revistas como o Journal of the American Heart Association e o European Heart Journal apontam alterações importantes em usuários crônicos.
Entre os problemas descritos estão espessamento ventricular, disfunção diastólica e alterações na função endotelial. Em termos simples, o coração pode ficar mais grosso, mais rígido e menos eficiente.
Uma revisão publicada em 2025 no Frontiers in Cardiovascular Medicine analisou casos de morte associados ao uso de esteroides. Nas autópsias, os pesquisadores encontraram um padrão recorrente: hipertrofia do ventrículo esquerdo, trombose coronariana e cardiomiopatia dilatada.
Essas alterações não combinam com a imagem vendida nas redes sociais. Enquanto o corpo parece forte por fora, o coração pode estar sofrendo por dentro.
Redes sociais e o risco que desaparece na edição
Parte do problema tem endereço certo: a cultura fitness das redes sociais. Perfis com centenas de milhares de seguidores tratam ciclos de anabolizantes como se fossem apenas mais uma etapa da rotina de treino.
Para o adolescente que vê aquele corpo e deseja alcançar o mesmo resultado, a mensagem chega de forma simples e perigosa: funciona, todo mundo usa e não há problema.
Só que há problema.
O excesso de exercício combinado com esteroides, dietas extremas e estimulantes cria uma sobrecarga que o organismo jovem, ainda em desenvolvimento, não foi feito para suportar. Além disso, muitos efeitos colaterais não aparecem imediatamente. Eles podem se acumular de forma silenciosa, até que o corpo dê sinais mais graves.
Construir um corpo forte e saudável sem esteroides é possível. Demora mais, exige consistência e não oferece o mesmo impacto rápido das transformações exibidas nas redes. Ainda assim, o coração que chega aos 40 anos intacto vale cada treino a mais e cada quilo de músculo conquistado no tempo natural do corpo.
Gabriel Ganley era atleta. Competia no fisiculturismo natural, vencia, inspirava e tinha uma trajetória pela frente. A história do BBzinho deixa um recado difícil: o atalho, às vezes, não leva a lugar nenhum.
Que sirva, pelo menos, de alerta.
Fontes citadas na coluna: Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Sbem; Journal of the American Heart Association; Frontiers in Cardiovascular Medicine; European Heart Journal; Conselho Federal de Medicina.
Publicado originalmente na BPB.