O corpo que nunca parece suficiente

Pessoa medindo a cintura com fita métrica, vestindo top preto e calça jeans, em imagem que representa preocupação com a imagem corporal.
Foto: Mikhail Nilov/Pexels

Emagrecimento rápido, uso estético de medicamentos e pressão estética reacendem alerta sobre saúde, massa muscular e imagem corporal.

Existe uma cena que se repete com frequência no consultório. A paciente entra, senta e, antes mesmo de falar sobre sono, energia, exames ou saúde emocional, diz que deseja emagrecer.

Não importa se o metabolismo está funcionando bem, se há perda de massa muscular ou se os exames indicam sinais de exaustão física e mental. Naquele momento, tudo parece se resumir ao número da balança. E, para muitas pessoas, quanto menor esse número, melhor.

Esse comportamento não é novo, mas voltou a ganhar força nos últimos anos.

Um padrão antigo com uma nova embalagem

Nos anos 1990, o mundo viveu a era do chamado heroin chic, marcada por corpos extremamente magros, rostos abatidos, clavículas aparentes e uma estética que associava fragilidade à beleza. Kate Moss se tornou um dos símbolos dessa geração.

Esse padrão deixou marcas importantes. Houve aumento da preocupação com transtornos alimentares, distorção de imagem, compulsões silenciosas e a ideia de que ocupar menos espaço era quase uma obrigação.

Depois, nos anos 2000, o movimento body positive começou a ganhar força. Campanhas passaram a incluir corpos diferentes, e a autoaceitação entrou no debate público. Parecia que algo estava mudando. No entanto, essa mudança não se sustentou por completo.

Segundo o relatório de inclusão de tamanhos de 2025, dos 8.703 looks exibidos em 198 desfiles internacionais, apenas 2% traziam modelos de tamanho médio. A magreza extrema voltou a ocupar passarelas, revistas e, principalmente, redes sociais.

A diferença é que, agora, esse padrão aparece acompanhado de linguagem científica, marketing bilionário e embalagem farmacêutica.

A caneta que mudou o debate sobre emagrecimento

O Ozempic foi aprovado no Brasil em 2018 para o tratamento do diabetes tipo 2. Durante alguns anos, o medicamento passou quase despercebido fora do público com indicação clínica específica. Isso mudou quando celebridades começaram a aparecer mais magras em pouco tempo, e as redes sociais ampliaram o assunto.

Segundo dados da DrFirst, as prescrições de semaglutida cresceram 150% entre dezembro de 2022 e junho de 2023. Em abril de 2024, o termo “Ozempic” foi pesquisado 1,5 milhão de vezes em apenas um mês. Além disso, as vendas cresceram mais de 660% em seis anos.

É importante deixar claro que o problema não é o medicamento. A semaglutida possui estudos sólidos e pode ser uma ferramenta importante quando existe indicação correta e acompanhamento adequado.

O problema está no uso simbólico e estético que se criou em torno dela. Uma medicação passou a ser tratada como atalho, objeto de desejo e ferramenta para alcançar um padrão corporal que, muitas vezes, não tem relação direta com saúde.

E isso pode cobrar um preço. Entre os efeitos colaterais mais conhecidos estão náuseas, vômitos, diarreia e refluxo. No entanto, também existem riscos menos comentados, como perda de massa muscular, fadiga, desnutrição e desidratação.

Em alguns casos, podem ocorrer complicações mais graves, como pancreatite. Além disso, quando o uso é interrompido sem mudança real de hábitos, o peso pode retornar, às vezes em quantidade maior do que antes.

O que muita gente não percebe durante o emagrecimento

Quando o corpo emagrece rápido demais, sem suporte nutricional adequado e sem exercício físico, ele não perde apenas gordura. Também perde músculo.

A massa muscular participa diretamente do metabolismo, da imunidade, do controle glicêmico, da produção hormonal, da proteção óssea e até da saúde cerebral.

Ela funciona como uma reserva estratégica do organismo. Em situações de doença, cirurgia ou estresse físico importante, é da musculatura que o corpo retira aminoácidos para sobreviver e se recuperar.

Por isso, quando alguém perde massa muscular apenas para “ficar menor”, o organismo inteiro pode se enfraquecer.

A sarcopenia, nome dado à perda progressiva de músculo, já é considerada um marcador importante de envelhecimento acelerado. Ela aumenta o risco de resistência à insulina, fragilidade física, inflamação crônica e perda de autonomia ao longo da vida.

O ponto mais preocupante é que esse processo pode começar muito antes da velhice.

O impacto psicológico da pressão estética

Enquanto o corpo sofre metabolicamente, a mente também pode pagar a conta.

O Brasil possui milhões de pessoas convivendo com transtornos alimentares. A anorexia nervosa, por exemplo, está entre os transtornos psiquiátricos com maior taxa de mortalidade.

Hoje, existe ainda um agravante: a velocidade. Nunca foi tão fácil comparar o próprio corpo com milhares de outros corpos ao longo do dia. As redes sociais transformaram estética em validação social.

Tendências como skinnytok reforçam comportamentos nocivos e criam ambientes onde obsessões alimentares passam a parecer normais. Aquilo que antes era escondido, agora pode encontrar incentivo coletivo.

Por que esse padrão voltou agora?

O corpo virou produto. E todo produto, dentro da lógica do mercado, tende a seguir um padrão.

O algoritmo recompensa transformações rápidas, premia o “antes e depois” e amplifica quem emagrece em pouco tempo. Em contrapartida, raramente valoriza quem constrói saúde de forma consistente e gradual.

Além disso, há uma questão social importante. Medicamentos como Ozempic têm custo elevado, e o chamado “corpo ideal” também passou a representar acesso financeiro. Em outras palavras, só consegue participar plenamente desse padrão quem pode pagar por ele.

Talvez o ponto mais perigoso seja que o discurso mudou de nome, mas continua parecido. Hoje, muitas pessoas usam palavras como “disciplina”, “autocuidado” e “vida saudável” para mascarar uma busca obsessiva por um corpo cada vez menor.

O que realmente importa quando falamos em longevidade

A ciência sobre envelhecimento saudável mostra um caminho diferente daquele vendido nas redes sociais.

As pessoas que chegam à velhice com autonomia, força e independência raramente são apenas as mais magras. Em geral, são aquelas que preservaram massa muscular, dormiram melhor, treinaram força, mantiveram boa relação com a comida, cuidaram da saúde emocional e entenderam que saúde não deve ser punição estética.

O treino de força continua sendo uma das estratégias mais eficazes para prevenir doenças metabólicas, perda óssea, fragilidade e declínio cognitivo. Não existe caneta capaz de substituir esse processo.

Talvez a primeira mudança necessária seja parar de associar automaticamente emagrecimento à saúde. Nem todo corpo magro é saudável, e nem todo processo de emagrecimento constrói saúde de verdade.

Avaliar composição corporal, massa muscular, exames metabólicos, marcadores inflamatórios e qualidade de vida diz muito mais do que apenas subir em uma balança.

A suplementação adequada pode ajudar. Proteína, vitamina D, magnésio, ômega 3 e outros nutrientes têm papel importante em muitos pacientes. No entanto, saúde não se resume a cápsulas e muito menos a uma caneta.

Exercício físico precisa deixar de ser visto como castigo e passar a ser entendido como investimento de longo prazo.

No fim, quando alguém entra no consultório dizendo “quero emagrecer”, talvez a pergunta mais importante não seja “quantos quilos você quer perder?”. A pergunta deveria ser: “que tipo de saúde você quer construir daqui para frente?”.

O corpo humano é complexo demais para ser reduzido a um número. E saúde de verdade nunca coube apenas dentro da balança.

Publicado originalmente na BPB.

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