A febre dos biomarcadores caseiros

Pessoa de camisa azul consultando a tela de um smartwatch no pulso, exibindo informações de aplicativo.
A febre dos biomarcadores caseiros: dispositivos vestíveis prometem monitorar a saúde em tempo real. Foto: Pixabay/Pexels.

Wearables de saúde popularizam biomarcadores caseiros, mas médicos alertam para limites, ansiedade e necessidade de interpretação clínica.

Hoje, tenho visto diversos pacientes chegando ao consultório com uma nova rotina. Antes mesmo de eu perguntar como dormiram, eles já mostram o celular.

Na tela aparecem o gráfico do sono, o escore de recuperação e a variabilidade da frequência cardíaca da madrugada anterior. Isso mudou muito nos últimos anos. E não é exagero dizer que os wearables de saúde deixaram de ser apenas acessórios de academia para se tornarem uma fonte de dado clínico real, ainda que com limites que precisam ser bem entendidos.

A CES 2026, em Las Vegas, deixou isso ainda mais evidente. O evento, que sempre foi vitrine de gadgets de consumo, passou a tratar pulseiras e relógios inteligentes como ferramentas de cuidado à distância, capazes de sustentar o modelo de “hospital em casa”.

No Brasil, a healthtech Medeor já prepara o lançamento de um dispositivo médico vestível, o WRBTECH. A promessa é monitorar oximetria, batimentos e pressão arterial em tempo real, com geolocalização e detecção de queda incluídas. O equipamento está em fase final de regulamentação.

A proposta da empresa é sair do wellness genérico e entregar dados capazes de virar decisão clínica de fato.

O que a ciência já confirma

Aqui entra a parte que mais me interessa como médico: nem todo dado tem o mesmo peso.

Uma revisão publicada na Revista de Direito Sanitário da USP mapeou o cenário regulatório brasileiro e mostrou que a Anvisa aprovou, até agora, cinco softwares para smartwatches. Todos são voltados a pressão arterial, eletrocardiograma e notificação de ritmo cardíaco irregular.

Por outro lado, dispositivos que prometem medir glicose ou oxigenação de forma não invasiva ainda não têm registro no país. O motivo é simples: faltam evidências robustas de segurança e desempenho para essas indicações.

Vale saber disso antes de confiar cegamente em um número na tela.

O que ainda é promessa

Ao mesmo tempo, há evidências surgindo.

Um estudo conduzido pelo InCor, o Instituto do Coração da USP, em parceria com a Samsung, comparou o monitoramento de sono, frequência cardíaca e eletrocardiograma dos dispositivos da marca com padrões clínicos de referência. Os dados encontrados foram muito próximos.

Esse resultado abriu espaço para uma nova pesquisa, que já acompanha pacientes cardiopatas usando esses aparelhos no dia a dia. A ideia é entender o real valor clínico do monitoramento contínuo fora do hospital.

Ou seja, a tecnologia está avançando. No entanto, ainda precisa ser validada métrica por métrica, indicação por indicação.

Nem todo aparelho acerta a mesma coisa

Uma plataforma independente, a Kygo Health, foi além e cruzou 17 estudos científicos publicados entre 2023 e 2025. A análise comparou seis marcas: Oura, Apple Watch, Whoop, Garmin, Fitbit e Withings.

Os dispositivos foram confrontados com exames de referência, como polissonografia e eletrocardiograma. A conclusão central é que não existe um vencedor absoluto.

Cada aparelho acerta mais em determinada métrica e erra mais em outra.

Na frequência cardíaca durante exercício, comparada ao ECG, o Apple Watch apareceu na frente, com cerca de 86% de concordância. Já o Garmin ficou perto de 68%. Por outro lado, na contagem de passos e no gasto calórico, os erros de todos os aparelhos foram consideráveis.

Isso reforça algo que costumo repetir: wearable é ferramenta de tendência, não substituto de exame laboratorial.

O sono é a métrica mais delicada

O sono é uma das métricas mais estudadas. Ainda assim, também é uma das mais discutíveis.

O Wall Street Journal fez um teste comparativo recente, confrontando Apple Watch, Oura, Fitbit Air e Whoop MG com eletrodos de laboratório. Esses eletrodos captam ondas cerebrais e movimento ocular, o que permite uma avaliação mais precisa.

O relógio da Apple foi o que mais se aproximou da duração real de sono medida em ambiente clínico. Em seguida, vieram Fitbit e Oura.

Mas existe um detalhe importante para compartilhar com os pacientes: todos os dispositivos superestimaram o sono profundo. Isso acontece porque nenhum deles consegue captar atividade cerebral de verdade. Eles apenas inferem estágios do sono a partir de movimento e batimento cardíaco.

Portanto, o dado pode ajudar, mas não deve ser tratado como verdade absoluta.

Quando o dado vira fonte de ansiedade

Essa é a parte que mais precisa de espaço na conversa com o paciente.

Existe um fenômeno já batizado pela literatura médica: a ortossonia. O termo nasceu de um estudo publicado no Journal of Clinical Sleep Medicine, conduzido por pesquisadores da Rush University e da Northwestern.

O estudo descreveu pacientes tão obcecados em melhorar o próprio escore de sono no aplicativo que passavam a noite acordados tentando “consertar” o número. A ferramenta que deveria trazer tranquilidade virou fonte de insônia.

Já vi isso na prática clínica.

A endocrinologista Alessandra Rascovski, em entrevista ao portal Drauzio Varella, resumiu bem o problema. É comum o paciente relatar que se sentia bem, mas ficou ansioso porque o relógio indicou uma noite ruim.

O dado não substitui a percepção do próprio corpo. E essa é uma discussão que sempre levo para dentro do consultório quando um paciente chega dependente demais do número.

O risco dos sensores usados sem contexto

O mesmo movimento aparece no uso de monitores contínuos de glicose por pessoas que não têm diabetes.

O mercado de biohacking, hoje avaliado em cerca de 22,5 bilhões de dólares, deve mais que dobrar até 2034, segundo a Fortune Business Insights. Boa parte desse crescimento vem justamente de sensores vendidos diretamente ao consumidor, sem prescrição, com a promessa de revelar “picos glicêmicos escondidos” em pessoas metabolicamente saudáveis.

O problema, como bem colocou uma reportagem da CNN, é que ter acesso ao dado não é a mesma coisa que saber interpretá-lo.

Reduzir carboidrato até zerar o “score” do aplicativo não é meta terapêutica. Muitas vezes, é ansiedade travestida de disciplina.

Onde a tecnologia realmente ajuda o médico

Dito isso, seria ingenuidade descartar o valor clínico desses aparelhos.

As diretrizes da American Diabetes Association de 2026 já recomendam o monitor contínuo de glicose desde o diagnóstico e em várias situações específicas de manejo do diabetes. A recomendação se apoia em evidências acumuladas de estudos como IMPACT, REPLACE e MOBILE, que mostraram redução de hipoglicemia e melhora glicêmica sustentada.

Além disso, em uma sessão do ACP Internal Medicine Meeting deste ano, ficou claro que a tecnologia já não é mais nicho. Ainda assim, boa parte dos clínicos continua se atualizando sobre como usá-la na rotina ambulatorial.

O ganho real está na longitudinalidade.

Um exame pontual mostra uma foto. O wearable mostra o filme inteiro.

O valor está na tendência, não no número isolado

Esse tipo de dado muda a consulta.

Em vez de perguntar genericamente “como você tem dormido?”, eu consigo olhar semanas de tendência. A partir disso, posso cruzar as informações com sintomas, ciclo hormonal, nível de estresse relatado, rotina de treino e alimentação.

Há quem já use inteligência artificial para organizar esse volume de informação e facilitar a leitura clínica. É o caso do médico Michael Blum, da BeeKeeper AI, que trabalha justamente na tradução desses dados brutos em insights úteis para o consultório.

Mesmo assim, o raciocínio clínico continua sendo indispensável.

O dado sozinho não fecha diagnóstico. Ele levanta hipóteses, mostra padrões e ajuda a guiar perguntas melhores.

Qual aparelho vale o investimento?

Para quem me pergunta qual comprar, a resposta honesta é: depende do objetivo.

O Apple Watch segue como o mais completo para quem quer um único dispositivo com recursos médicos certificados, boa precisão em frequência cardíaca ativa e ECG validado.

O Oura Ring se destaca à noite, especialmente no sono e na variabilidade da frequência cardíaca. Também é discreto para quem já usa outro relógio durante o dia.

O Whoop entrega uma proposta mais voltada à recuperação e ao comportamento do atleta, sem função de smartwatch.

Já o Garmin ainda lidera em bateria e GPS, sendo a escolha natural de quem treina resistência ao ar livre.

Tecnologia não substitui avaliação médica

Nenhum desses aparelhos substitui exame de sangue, ECG de 12 derivações ou polissonografia completa.

Mas todos, quando usados com critério, dão ao paciente algo que a medicina convencional raramente oferece: a sensação de acompanhar o próprio corpo entre uma consulta e outra.

E é exatamente aí que entra o papel do médico.

Não para desvalidar o dado, mas para dar contexto. O objetivo é transformar número solto em mudança de hábito sustentável.

Tecnologia sem orientação clínica vira ansiedade. Tecnologia com orientação clínica vira ferramenta de autonomia.

A diferença está sempre na conversa que se tem depois que o alerta pisca na tela.

Publicado originalmente na BPB.

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